Últimos Cantos
GONÇALVES DIAS · 1851 · ROMANTISMO
Terceiro livro de poesia de Gonçalves Dias, reunindo poemas que consolidam o indianismo como projeto literário e incluem o célebre I-Juca-Pirama, sobre um guerreiro tupi capturado.
Coleções: Cultura Brasileira · Romantismo · Poesia Brasileira
De onde ela vem
I-Juca-Pirama, incluído em Últimos Cantos, é considerado o maior poema indianista da literatura brasileira, narrado com uma estrutura épica sobre a honra e o sacrifício na cultura tupi.
Temas: indianismo · amor · patria · poesia
Últimos Cantos, na íntegra
É o texto completo, em domínio público — o mesmo que sai no arquivo EPUB. A grafia é a da fonte de onde ele foi transcrito: em obras do século XIX ela difere da atual, e não é erro de digitação.
Dedicatória
AO
MEU CARO E SAUDOSO AMIGO
O
DR. ALEXANDRE THEOPHILO DE CARVALHO LEAL
OFFERECENDO-LHE ESTE VOLUME DE POESIAS.
Eis os meus ultimos cantos, o meu ultimo volume de poesias soltas, os ultimos harpejos de uma lyra, cujas cordas forão estalando, muitas aos balanços asperos da desventura, e outras, talvez a maior parte, com as dores de um espirito infermo, — ficticias, mas nem por isso menos agudas, — produzidas pela imaginação, como se a realidade já não fosse por si bastante penosa, ou que a espirito, affeito a certa dose de soffrimento, se sobresaltasse de sentir menos pezada a costumada carga.
No meio de rudes trabalhos, de occupações estereis, de cuidados pungentes, — inquieto do presente, incerto do futuro, derramando um olhar cheio de lagrimas e saudades sobre o meu passado — percorri este primeiro estadio da minha vida litteraria. Desejar e soffrer — eis toda a minha vida neste periodo; e estes desejos immensos, indisiveis, e nunca satisfeitos, — caprichosos como a imaginação, — vagos como o oceano, — e terriveis como a tempestade; — e estes soffrimentos de todos os dias, de todos os instantes, obscuros, implacaveis, renascentes, — ligados a minha existencia, reconcentrados em minha alma, devorados comigo, — umas vezes me deixarão sem força e sem coragem, e se reproduzirão em pallidos reflexos do que eu sentia, ou me forçarão a procurar um alivio, uma distracção no estudo, e a esquecer-me da realidade com as ficções do ideal.
Se as minhas pobres composições não forão inteiramente inuteis ao meu paiz; se algumas vezes tive o maior prazer que me foi dado sentir — a mais lisongeira recompensa a que poderia aspirar, — de as ouvir estimadas pelos homens da arte, daquelles, que segundo o poeta, porque a entendem, a estimão, e repetidas por aquella classe do povo, que só de cór as poderia ter aprendido, isto é, dos outros que a comprehendem, porque a sentem, porque a adivinhão — paguei bem caro esta momentanea celebridade com decepções profundas, com desenganos amargos, e com a lenta agonia de um martyrio ignorado.
Melhor que ninguem o sabes: podes a teu grado sondar os arcanos da minha consciencia, e não te será difficil descobrir o segredo das minhas tristes inspirações. Os meus primeiros, os meus ultimos cantos são teus: o que sou, o que for, a ti o devo, — a ti, ao teu nobre coração, que durante os melhores annos da juventude bateu constantemente ao meu lado, — a aragem bemfazeja da tua amisade sollicita e desvelada, — a tua voz que me animava e consolava, — a tua intelligencia que me vivificava — ao prodigio de duas indoles tão assimiladas, de duas almas tão irmãs, tão gemeas, que uma dellas rematava o pensamento apenas enunciado da outra, e aos sentimentos unisonos de dous corações, que mutuamente se fallavão, se interpretavão, se respondião sem o auxilio de palavras. Duplicada a minha existencia, não era muito que eu me sentisse com forças para abalançar-me a esta empreza; e agora que em parte a tenho concluido, é um dever de gratidão, um dever para que sou attrahido por todas as potencias da minha alma, escrever aqui o teu nome, como talvez seja o derradeiro que escreverei em minhas obras, o ultimo que os meus labios pronunciem, se nos paroxismos da morte se poder destacar inteiramente do meu coração.
Ser-me-hia doloroso não cumprir os teus desejos, — não satisfazer as esperanças, que em mim tinhas depositado, — não realisar a expectação da tua desinteressada amisade. Entrei na luta, e procurei disputar ao tempo uma fraca parcella da sua duração, não por amor do orgulho, nem por amor da gloria; mas para que, depois da morte de ambos, uma só que fosse das minhas producções sobrenadasse no olvido, e por mais uma geração estendesse a memoria tua e minha. Assim passa a onda sobre um navio que soçobra, e atira á praias desconhecidas os destroços de um mastro embrulhado nas vestes dos navegantes.
Entrei na luta, e por mais algum tempo continuarei nella, variando apenas o sentido dos meus cantos. A fé e o enthusiasmo, o oleo e o pabulo da lampada que alumia as composições do artista, vão-se-me esfriando dentro do peito; eu o conheço e o sinto; se pois ainda persisto nesta carreira é por teu respeito: continuarei — até que satisfeito dos meus esforços me digas: basta! — Então, já t’o hei dito, voltarei gostoso á obscuridade, donde não devera ter sahido, e — como um soldado desconhecido — contarei os meus triumphos pelas minhas feridas, voltando a habitação singela, onde me correrão, não felizes, mas os primeiros dias da minha infancia.
Minha alma não está comigo, não anda entre os nevoeiros dos Orgãos, involta em neblina, balouçada em castellos de nuvens, nem rouquejando na voz do trovão. Lá está ella! — lá está a espreguiçar-se nas vagas de S. Marcos, a rumorejar nas folhas dos mangues, a sussurrar nos leques das palmeiras lá está ella nos sitios que os meus olhos sempre virão, nas paisagens que eu amo, onde se avista a palmeira esbelta, o cajazeiro coberto de cipós, e o páu d’arco coberto de flores amarellas. Ali sim, — ali está — desfeita em lagrimas nas folhas das bananeiras — desfeita em orvalho sobre as nossas flores, desfcita em harmonia sobre os nossos bosques, sobre os nossos rios, sobre os nossos mares, sobre tudo que eu amo, e que em bem veja eu em breve! Ahi, outra vez remoçado e vivificado de todos os annos que esperdicei, poderei enchugar os meus vestidos, voltar aos gosos de uma vida ignorada, e do meu lar tranquillo ver outros mais corajosos e mais felizes que eu affrontar as borrascas desencadeadas no occano, que eu houver para sempre deixado atraz de mim.
Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1850.
A. Gonçalves Dias.
A Infância
A INFANCIA.
I.
Bello raio do sol da existencia,
Meninice fagueira e gentil,
Doce riso de pura innocencia
Sempre adorne teu rosto infantil.
Sempre tenhas, anginho innocente,
Quem se apresse em teus passos guiar,
E uma voz que o teu somno acalente,
E um sorriso no teu acordar.
Enlevada nos sonhos jocundos
Voz etherea te venha fallar,
E visão d’outros céos, d’outros mundos,
Venha amiga tua alma encantar.
Leda infancia gentil! e quem não te ama?
Quem tão de pedra o coração não sente
Aos teus encantos meigos mais tranquillo?
Quem não sente memorias d’outras eras
Travarem-lhe da mente ao recordar-se
Aquelle gozo puro e suavissimo
De vida, que jamais não tem logrado?
Recordações de um mundo adormecido
Lá lhe estão dentro d’alma esvoaçando,
Como harpejos de musica longinqua!
E a mente nos seus quadros embebida,
Por magica illusão enfeitiçada,
Como outr’ora, talvez sómente veja
Na terra — um chão de flores estrellado,
E nos céos — outro chão de flores vivas!
II.
Afagada e bem vinda e querida
Travessuras scismando infantis,
Nos caminhos floridos da vida
Vai mimosa, imprudente e feliz!
É sua vida um continuo festejo,
Sonhos d’oiro só sabe sonhar,
Toda clla um afan, um desejo
D’outros jogos contente brincar.
Puro riso o semblante lhe adorna,
Logo pranto começa a verter,
E depois outro riso lhe torna,
E depois outro pranto a correr.
Tão perto jaz a fonte da amargura,
Da fonte do praser! — porém tão doces
Essas lagrimas são! — tão abundantes,
Tão sem causa e sympathicas gotejão
N’uma tez de carmim, n’um rosto bello!
Quem as vè, que sorrindo as não enchuga?
Mas não todo consumas o thesouro
Unico e triste, que ao infeliz sobeja
Nas horas do soffrer; no tempo amargo,
No qual o rosto pallido se enruga,
E os olhos seccos, aridos chammejão,
Será talvez bem grato refrigerio
Uma lagrima só, em que arrancada
A força da afflicção dos seios d’alma.
Mas tu, feliz, sorri, em quanto a vida,
Como um río entre flores, se deslisa
Macio, puro, recendendo aromas.
III.
Bello raio do sol da existencia,
Flor da vida, mimosa e gentil,
Fonte pura de meiga innocencia,
Leve gozo da quadra infantil!
Quem fruir-te outra vez não deseja,
Quando vê sobre a veiga formosa
A menina travessa e ruidosa,
Borboleta que alegre doudeja?
A menina é uma flor de poesia,
Um composto de rosa e jasmim,
Um sorriso que Deos alumia,
Um amor de gentil serafim!
Folga e ri no começo da existencia,
Borboleta gentil! a flor dos valles,
Da noite á viração abrindo o calix,
O puro orvalho da manhã te guarda;
Inda perfumes dá, que te embriagão,
Inda o sol quando aquece os vivos raios,
Nas azas multicores scintillando,
Com terno amor de pae, em torno esparge
Pó subtil de rubins e de safiras.
Folga e ri no começo da existencia,
Humano serafim, que esse perfume
São das azas do anjo, que s’impregnão
Dos aromas do céo, quando atear-se,
Roaz fogo de vida começando,
Quanto havemos de Deos consome e apaga.
IV.
Porém tu, afagada e querida,
Com requebros donosos, gentis,
Vai contente caminho da vida,
Bello anginho, mimoso e feliz!
E do bardo a canção magoada,
Quando a possas um dia escutar,
Hade ser como rota grinalda,
Que perfumes deixou de exhalar!
E esta mão talvez seja sem vida,
E este peito talvez sem calor,
E memoria apagada e sumida,
Talvez seja a do triste cantor!
A Tempestade
III.
A TEMPESTADE.
Quem porfiar comtigo.... ousara
Da gloria o poderio; Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?
A. Herculano.
Um raio
Fulgura
No espaço
Esparso,
De luz;
E tremulo
E puro
Se aviva,
S’esquiva,
Rutila,
Seduz!
Vem a aurora
Pressurosa,
Côr de rosa,
Que se cora
De carmini;
A seus raios
As estrellas,
Que erão bellas,
Tem desmaios,
Já por fim.
O sol desponta
La no horisonte,
Doirando a fonte,
E o prado e o monte
E o céo e o mar;
E um manto bello
De vivas côres
Adorna as flores,
Que entre verdores
Se vê brilhar.
Um ponto apparece,
Que o dia entristece,
O céo, onde cresce,
De negro a tingir;
Oh! vêde a procella
Infrene, mas bella,
No ar s’encapella
Já prompta a rugir!
Não sólta a voz canora
No bosque o vate alado,
Que um canto d’inspirado
Tem sempre a cada aurora;
É mudo quanto habita
Da terra n’amplidão.
A coma então lusente
Se agita do arvoredo,
E o vate um canto a medo
Desfere lentamente,
Sentindo oppresso o peito
De tanta inspiração.
Fogem do vento que ruge
As nuvens auri-nevadas,
Como ovelhas assustadas
D’um fero lobo cerval;
Estilhão-se como as velas
Que no alto mar apanha,
Ardendo na usada sanha,
Subitaneo vendaval.
Bem como serpentes que o frio
Em nós emmaranha, — salgadas
As ondas s’estanhão, pesadas
Batendo no frouxo arcal.
Disseras que viras vagando
Nas furnas do céo entre-abertas,
Que mudas fuzilão, — incertas
Fantasmas do genio do mal!
E no turgido occaso se avista
Entre a cinza que o céo apolvilha,
Um clarão momentaneo que brilha,
Sem das nuvens o seio rasgar;
Logo um raio scintilla e mais outro,
Ainda outro veloz, fascinante,
Qual sentelha que em rapido instante
Se converte d’incendios em mar.
Um som longinquo cavernoso e ouco
Rouqueja, e n’amplidão do espaço morre;
Eis outro inda mais perto, inda mais rouco,
Que alpestres cimos mais veloz percorre,
Troveja, estoura, atrôa; e d’entro em pouco
Do Norte ao Sul, -d’um ponto a outro corre:
Devorador incendio alastra os ares,
Em quanto a noite pesa sobre os mares.
Nos ultimos cimos dos montes erguidos
Já silva, já ruge do vento o pegão;
Estorcem-se os leques dos verdes palmares,
Volteião, rebramão, doudejão nos ares,
Até que lascados baqueião no chão.
Remeche-se a copa dos troncos altivos,
Transtorna-se, tolda, baqueia tambem;
E o vento, que as rochas abala no cerro,
Os troncos enlaça nas azas de ferro,
E atira-os raivoso dos montes além.
Da nuvem densa, que no espaço ondeia,
Rasga-se o negro bojo carregado,
E em quanto a luz do raio o sol roxeia,
Onde parece á terra estar collado,
Da chuva, que os sentidos nos enleia,
O forte peso em turbilhão mudado,
Das ruinas completa o grande estrago.
Parecendo mudar a terra em lago.
Inda ronca o trovão retumbante,
Inda o raio fuzila no espaço,
E o corisco n’um rapido instante
Brilha, fulge, rutila, e fugio.
Mas se á terra desceu, mirra o tronco.
Cega o triste que iroso ameaça,
E o penedo, que as nuvens devassa,
Como tronco sem viço partio.
Deixando a palhoça singela,
Humilde labor da pobreza,
Da nossa vaidosa grandeza,
Nivela os fastigios sem dó;
E os templos e as grimpas soberbas,
Palacio ou mesquita preclara,
Que a foice do tempo poupára,
Em breves momentos é pó.
Cresce a chuva, os rios crescem,
Pobres regatos s’empolão,
E nas turvas ondas rolão
Grossos troncos a boiar!
O corrego, qu’inda ha pouco
No torrado leito ardia,
É já torrente bravia,
Que da praia arreda o mar.
Mas ah! do desditoso,
Que vio crescer a enchente
E desce descuidoso
Ao valle, quando sente
Crescer d’um lado e d’outro
O mar da alluvião!
Os troncos arrancados
Sem rumo vão boiantes;
E os tectos arrasados,
Inteiros, fluctuantes,
Dão antes crua morte,
Que asylo e protecção!
Porém no occidente
S’ergueu de repente
O arco luzente,
De Deos o pharol;
Succedem-se as cores,
Qu’imitão as flores,
Que sembrão primores
D’um novo arrebol.
Nas aguas pousa;
E a base viva
De luz esquiva,
E a curva altiva
Sublima ao ceo;
Inda outro arqueia,
Mais desbotado
Quasi apagado,
Como embotado
De tenue véo.
Tal a chuva
Transparece,
Quando desce
I ainda vê-se
O sol luzir;
Como a virgem,
Que n’uma hora
Ri-se e cora,
Depois chora
E torna a rir.
A folha
Luzente
Do orvalho
Nitente
A gota
Retrae:
Vacilla,
Palpita;
Mais grossa,
Hesita,
E treme
E cahe.
Menina e Moça
MENINA E MOÇA.
Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux! Chenier .
É leda a flor que desponta
Sobre o talo melindroso,
E o arrebento viçoso
Crescendo em floreo tapiz;
É doce o romper da aurora,
Doce a luz da madrugada,
Doce o luzir da alvorada,
Doce, mimoso e feliz!
É bella a virgem risonha
Com seus musicos accentos,
Com seus virgens pensamentos,
Com seus mimos infantis;
Como quanto inceta a vida,
Que á luz sorri da existencia,
Que tem na sua innocencia
Da mocidade o verniz.
Vinga a flor a pouco e pouco,
Cada vez mais bem querida,
Tem mais encantos, mais vida,
Tem mais brilho, mais fulgor:
De cada gota de orvalho
Extrahe celeste perfume,
E do sol no raio assume
Cada vez mais viva côr.
Assin á virgem mimosa,
Pouco e pouco, noite e dia,
Mais viva flor de poesia
Do rosto lhe tinge a côr;
E um anjo nos meigos sonhos,
Do seu peito na dormencia
Derrama o odor da innocencia,
Um doce raio de amor!
Porque tudo, quando nasce,
Seja a luz da madrugada,
Seja o romper da alvorada,
Seja a virgem, seja a flor;
Tem mais amor, tem mais vida,
Como celeste feitura,
Que sahe melindrosa e pura
D’entre as mãos do creador.
28 de julho.
Velhice e Mocidade
VELHICE E MOCIDADE.
Eu levo à sepultura, uus após outros,
A donzella gentil, o velho infermo
E o mancebo que folga descansado
Á sombra da ventura.
...
«Minha filha, mais depressa,
Mais depressa um pouco andemos,
E da aurora que desponta
Saudavel frescor gozemos!
«Senta-me em baixo do chorão, que dobra
A verde rama sobre a campa núa
De um ser de peito bom, de rosto bello,
Que foi minha mulher, que foi mãi tua!
« O sol, nascendo apenas, vem primeiro
Seus raios nessa campa dardejar,
E á cansada velhice é bem fagueiro
Esses restos da vida desfructar.»
Um cego e triste velho que tremia
A força dos invernos que passarão,
A filha nova e bella, assim dizia,
A filha que os amores cubiçarão.
E tinha o velho pae nos hombros delta
A mão crestada e morta e já rugosa,
E ella ao pae, sollicita, extremosa,
Guiava como um anjo e alva e bella.
« Nem sempre o que ora vês teu pae tem sido,
Oh filha da minha alma, oh meu thesouro,
Também um tempo foi que, entretecido,
Tive o fio vital de seda e d'oiro!
« Também meus olhos se expraiarão longe,
Pela vasta extensão destas campinas;
Também segui a tortuosa veia
Desta linda corrente que se perde
Além, por entre penhas;
E a esmeraldina cor, de que se arreia
A relva destes prados, destas brenhas,
Meus olhos juvenis encheu de gozo,
Que agora os olhos teus também recreia!
« E que prazer tão grande! o sol nascia
N'um mar de luz brilhante!
Levantava-se mais, brilhava, ardia,
No prado verdejante,
Na fonte e na devesa ;
E o muncla e a natureza
De puro amor enchia!
Destoucavão-se os montes de neblina,
Que meiga e adelgaçada
Pendia como um véo de gaza fina
Da celeste morada,
Quando num mar formoso o sol nascia!
« O mundo era então luz — hoje é só trevas!
O céo de puro azul via tingido,
Via a terra de cores adornada,
E na immensa extensão d'agua salgada
Via a esteira de luz do sol lusido!
« Breve as horas passei de ser ditoso
Aqui neste lugar, ledo escutando
Tão amável tua mãi, tão carinhosa,
Q'instantes curtos me teceu faltando!
« Hoje existo somente porque existes,
Desfructo outro viver que não vivia,
Quando escutão tua voz os meus ouvidos,
Como sons de celeste melodia.
« Oh falia, falia sempre.—É doce ao velho
Sons d'argentina voz, que as fibras todas
Do frio coração remoça e abata,
Como d'uma harpa antiga
As deslembradas cordas,
Que a mão experta e amiga
Do trovador, num canto alegre estala.
« E doce ao solitário a voz de um anjo
Na sua solidão;
E ao velho pai a voz da casta filha,
Que falla ao coração.
« É doce, qual perfume matutino,
Que a flor eximia,
Que pelo peito da mulher amante
S'interna e cala;
« E doce, como a luz que se derrama
Pela face do mar,
Quando brando luar, da noite amigo,
Vem nella se espelhar.
« Falta, bem sei que amarga é tua vida,
Que amargo é teu penar;
No silencio da noite lenho ouvido
Teu peito a soluçar!
« Falia, tu bem vês que se a tormenía
Tetrica voa,
Ao ninho de seus pães o passarinho
Rápido voa. »
—Oh meu pai, como eu quizera
Meus pezares te esconder,
Mas lua filha, coitada,
Em breve tem de morrer!
— Sinto que o alento me falta,
Que longe foge de mim;
Sinto minha alma rasgar-se
Por te deixar só assim;
Meu bom pai, como está breve
Da tua filha o triste fim!
— Alta noite, ouvi, em sonhos,
A chamar-me um serafim;
Tinha alegria no rosto,
Mas chorava sobre mim ;
Meu bom pai, como eslá breve
Da tua filha o triste fim!
— E tu cá ficas sosinho,
E tu cá ficas sem mim!
Oh que n'alma só me pesa
Por te deixar só assim;
Meu bom pai, que é já chegado
Da tua filha o triste fim! —
E o velho, baixo faltando,
Tristemente assim dizia:
« Já fui feliz, já fui novo,
Já fui cheio de alegria!
« Eu tive pães exíremosos,
Irmãos que m'idolatrarão,
Eu tive castos amores,
Que antes de mim se acabarão
« Eu tive tantos no mundo
Quantos se pôde chorar;
Perdi todos, tudo; ai, triste,
Só eu não pude acabar!
« A o sopro da desventura
Só eu me não abalei,
Que a todos—novos e velhos—
A campa todos levei!
« Minha filha me restava!
Eu já fantasma impotente,
Sobre os torrões tropeçava
Da cova aberta recente!
« Anjo de amor e bondade
Porque me deixaste assim!
Tu morta, e na sepultura
Que eu tinha aberto pr'a mim!
« Deos, Senhor, quanto foi longo
O vaso em que fel traguei,
Findo o julguei; restão feses,
As feses esgotarei. »
E sobre a rosea face, ora amarella,
A aurora sempre bella radiava,
E o pai, ancião, que a dor rasgava,
Cingia ao corpo seu o corpo delia.
Nem pranto nos seus olhos borbulhava,
E nem nos lábios seus a dor gemia,
E sua alma, qual vaso em calmaria,
Entre vida e morrer immota arfava!
O beijo paternal, por fim, lhe estampa
Na filha, que prazeres só lhe dera;
E filha e pensamento—alguém dissera
Ter juntos sepultado a mesma campa!
Nos céos não tens, Senhor, bastantes anjos,
Por que os venhas assim buscar á terra?
Brilhe a virtude, quando reina o crime,
O crime impune e vil, que ás tontas erra.
Notas
NOTAS.
Tinha eu podido conseguir do Sr. D. Carlos Guido que me escrevesse um prologo para a presente collecção de poesias. A rapidez com que me vejo forçado a concluir a sua impressão, obriga-me a não publical-o por agora. É para mim uma perda, para o Sr. Guido uma simples demora. Trabalhos como este, ainda que, por serem retardados, alguma cousa possão perder de novidade e de opportunidade, tem comtudo tal merecimento intrinseco, que pouco desmerecem com o tempo.
POESIAS AMERICANAS.
O GIGANTE DE PEDRA.
Alguns dos principacs montes da enseada do Rio de Janeiro parecem aos que vem do Norte ou do Sul representar uma figura humana de colossal grandeza: este capricho da natureza foi conhecido dos primeiros navegantes portuguezes com a denominação de — frade de pedra, — que agora se chama o gigante de pedra. — Áquelle objecto se fez esta poesia.
......extincta a antiga crença Dos Tamoyos, dos Pagés.
Tamoyos erão os primeiros habitantes do Rio. — Pagés erão os sacerdotes, os augures, os medicos dos indigenas de todo o litoral do Brasil — os mesmos a que nos «Primeiros Cantos» dei o nome de plagas. Eis o que n’aquella obra escrevi a este respeito. — «Piagé — Piache — Piaye ou Piaga que mais se conforma á nossa pronuncia era ao mesmo tempo o sacerdote e o medico, o augure e o cantor dos indigenas do Brasil e de outras partes da America. E em outra nota accrescentei: «Erão anachoretas austeros, que habitavão cavernas hediondas, nas quaes, sob pena de morte, não penetravão profanos. Vivendo rigida e sobriamente, depois de um longo e terrivel noviciato, ainda mais rigido que a sua vida, erão elles um objecto de culto e de respeito para todos; — erão os dominadores dos chefcs — a balisa formidavel, que felizmente se erguia entre o conhecido e o desconhecido — entre a tão exigua sciencia d’aquelles homens, e a tão desejada revelação dos espiritos.» — Hans Staden escreve Paygi; Payé lê-se en uma das obras do Padre Vasconcellos, nome que tambem lhes dá Laet na sua «Descripção das Indias occidentaes.» Lery e Damião de Goes escrevem Pagé , orthographia que agora adoptamos.
Sons do murmuré.
Murémuré escreve o padre Vasconcellos nas suas «Noticias curiosas:» collige-se que é um instrumento feito de ossos de defuntos, como alguns outros, de que se servião.
Em Guanabara esplendida.
Guanabara — a enseada do Rio de Janeiro. — Escreve-se indifferentemente Genabara ou Ganabara. Lery diz na sua obra «— Histoire d’un voyage fait en la terre du Brésil —» en ceste riviere de Ganabara . Southey ( History of Brasil ) accrescenta em uma nota, que Nicolau Barré datava desta maneira as suas cartas. — Ad flumen Genabara in Brasilia &c .
Os cantos da victoria Tangidos no boré.
Boré — era um instrumento de guerra.
E das ygaras concavas.
Ygaras — erão canoas, feitas de ordinario de um só toro de madeira.
O Guau cadente e vario.
Guau — dansa «São mui dados a saltar e dansar de differentes modos, a que chamão guau em geral.» — Vasconcellos. Noticias Curiosas. L. 1.º n. 143.
OS CANTOS DA JANUBIA
Janubia . — Lery escreve diversamente: — des cornets, qu’ils nomment inubia de la grossuer et longueur d’une demie pique, mais par le bout d’embas larges d’environ un demi pied comme un hautbois . — Obra cit. pag. 202.
LEITO DE FOLHAS VERDES.
A arasoya na ciuta me apertarão.
Arasoya era o fraldão de pennas, moda entre elles. Lact chama assoyave uns mantos inteiros: não sei de que mantos quer o author fallar. Hans Staden (collecção de Ternaux pag 108) dá o mesmo nome a uma especie de cocar preso ao pescoço, e passando além da cabeça, com quanto a este ornato Lery dê o nome de Yenpenamby . Quanto a arasoya, eis o que se lê na obra já citada deste author — (pag. 103). Pour la fin de leurs equippages, recouvrans de leurs voisins de grandes plumes d’austruches, de couleurs grises, accommodans tous les tuyaux serrez d’un costé, et le reste qui s’esparpille en rond en façon d’un petit pavillon ou d’une rose, ils en font un grand pennache, qu’ils appellent arareye: le quel estant lié sur leurs reins avec une corde de cotton, l’estroit devers la chair, et le large en dehors, quand ils en sont enharnachez &e .
Y JUCA-PYRAMA.
O titulo desta poesia, traduzido litteralmente da lingua. tupi, vale tanto como se em portuguez dissessemos — o que hade ser morto. —
No meio das tabas.
Taba — aldeia de indios, composta de differentes habitações, a que chamavão ocas . Quando estas habitações se achavão isoladas ou fossem levantadas para o abrigo de uma ou já para o de muitas familias, tomavão o nome de Tejupab ou
Tejupabas .
São todos Tymbiras.
Tymbiras — tapuyas que habitão o interior da provincia. do Maranhão.
As armas quebrando.
Por este acto declaravão firmadas as pazes. Vieira faz menção desta solemnidade quando, em uma informação ao monarcha portuguez, se occupa da alliança feita entre os missionarios por parte dos portuguezes e dos Nhe-engaybas
de Marajó.
Assola-se o tecto.
A descripção das cerimonias com que elles usavão matar os seus prisioneiros de guerra é rigorosamente exacta, ainda que não adoptamos dos authores senão aquillo em que todos ou a maior parte concordão. Veja-se Ilans Staden — cap. 28 — dos usos e costumes dos Tupinambás. — Noticia do Brasil, cap. 171 e 172. Noticias Curiosas L. 1. n. 128 e Lery cap. XV.
Brilhante enduape no corpo lhe cingem.
Enduape — fraldão de pennas de que se servião os guerreiros: damos a denominação de arasoya a aquelles de que usavão as mulheres. « Ils font avec de plumes d’autruches, une espèce d’ornement de forme ronde, qu’ils attachent au bas du dos, quand ils vont à quelque grande fête: ils le nomment enduap. H. Staden . pag. 270.» Vasconcellos trata do enduape sem lhe dar nome algum especial. «Pela cintura apertão uma larga zona desta pende até os jelhos um largo fraldão a modo tragico, e de tão grande roda como é a de um ordinario chapeo de sol. — Noticias Curiosas L. 1. n. 129.»
Sombreia-lhe a fronte gentil kanitar.
Kanitar — é o nome do pennacho ou cocar, de que usavão os guerreiros de raça tupi, quando en marcha para a guerra, ou se aprestavão para alguma solemnidade d’importancia igual a esta. « Ils ont aussi l’habitude de s’attacher sur la tête un boquet de plumes rouges qu’ils nomment Konmittare (II. Staden).» — Usão de umas coroas a que chamão acangbetar . (Lact.) Os primeiros portuguezes escreverão acangatar , que litteralmente quer dizer — enfeite ou ornato da cabeça.
Entesa-se a corda da embira...
Chamava-se mussurana á corda com que se atava o prisioneiro. — « Et une longue corde nommée massarana, avec laquelle ils les altachent (les captifs) quand ils doivent être assomés .» (II. Staden , pag. 300). Masurana escreve Ferdinand Denis, accrescentando que era feita de algodão. É possivel que em algumas tribus fosse feita desta materia, mas convém notar que na maior parte dellas usava-se fabricar cordas de embira.
Adorna-se a massa com pennas gentis.
A massa do sacrificio não era o mesmo que a ordinaria, e tinha mais a differença dos ornatos que se lhe juntava, e do esmero com que era trabalhada. Lavravão e pintavão todo o punho — embagadura, como o chamavão — com desenhos e relevos a seu modo curiosos, e della deixavão pendente una borla de pennas delicadas e de cores differentes, sendo a folha ornada de mosaicos —. «Pintão (diz H. Staden, pag. 301) a massa do sacrificio, a que chamão iverapeme , com a qual deve ser sacrificado o prisioneiro: passão-lhe por cima uma materia viscosa, e tomando depois a casca dos ovos de um passaro chamado Mackukawa (acauam?) de côr parda escura, reduzcm-n’as a pó, e com elle salpicão toda a massa. Preparada a iverapeme, e adornada de pennas, suspendem-n’a em uma cabana inhabitada, e cantão em redor della toda a noite.» — Ferdinand Denis, accrescentando-lhe o artigo francez, escreve Liverapeme , que diz ser feita de páo-ferro e com mosaicos de differentes cores. Vasconcellos dá-lhe o nome de Tangapema, que é o termo do diccionario brasiliano.
MARABÁ.
Encontrámos na «Chronica da Companhia» um trecho que explica a significação desta palavra, e a idéa desta. breve composição. «Tinha certa velha enterrado vivo um menino, filho de sua nora, no mesmo ponto em que o parira, por ser filho a que chamão — marabá — que quer dizer de mistura (aborrecivel entre esta gente).» Vasconcellos . — Ch. da Comp., L. 3, n.º 27.
Formosos como um beija-flor.
Os indigenas chamavão ao beija-flor — Coaracy-aba — raios, ou mais litteralmente — cabellos do sol. Convém saber-se esta particularidade para bem entender-se a comparação.
A MÃE D’AGUA.
A mãe d’agua é uma naiada moderna, um espirito que habita no fundo dos rios. Acredita-se em muitas partes do Brasil que é uma mulher formosa com longos cabellos de oiro, que lhe servem como de vestido, com olhos que exercem inexplicavel fascinação, e voz tão harmociosa que ninguem que a escute resiste à tentação de se atirar as aguas para que mais de perto a ouça e contemple. O mesmo que as serêas, tem sobre ellas a vantagem de serem creaturas de fórmas perfeitas, e dellas se distinguem em fascinarem tanto com o brilho da formosura, como com a doçura da voz, e de attrahirem principalmente os meninos.
POESIAS DIVERSAS.
QUE ME PEDES.
Data esta composição de 9 de março de 1849.
A INFANCIA.
Esta poesia, impressa em um dos numeros do Jornal do Commercio de 1848, foi dedicada a Mlle. J. Picot. Havendo-me descuidado de escrever o seu nome no corpo da obra, aproveito-me desta occasião para reparar um esquecimento.
Igual descuido tive deixando de mencionar o nome do Sr. D. Carlos Guido, a quem devo ter composto a poesia que tem por titulo — Retractação. Foi este o ensejo. Poucos dias depois de publicados os «Segundos Cantos», recebi uma. carta do Sr. Guido era uma critica, mas critica benevola, chcia de enthusiasmo, escripta sem pretenção alguma e ao correr da penna. Agradou-me, porque me agrada sempre conversar com os meus amigos, e era um amigo que me escrevia, um poeta talentoso, que então pela primeira vez se me revelava como tal, — joven enthusiasta, e cujo coração é como uma pedra de toque da mais exquisita sensibilidade.
Tendo percorrido com a sua analyse algumas das composições do meu 2.° volume, accrescentava elle:
«Dir-se-hia que a sua palinodia é um chuveiro de pedras crystalisadas, agradaveis de se vêr, porque são prysmas, que reflectem as mais pronunciadas, fortes c soberbas cores; porém que devião converter-se em instrumentos terriveis de vingança, quando chegassem até a mesquinha mulher, a quem fossem dirigidos, como um anathema fulminante.
«Se eu não tivesse tanta confiança nos instinctos do coração, que o levão a exhalar o seu amor só onde acha fogo, fidelidade e caricias, pensaria talvez que aquella mulier existe, e então cu faria ao poeta amargas reflexões sobre a crueldade, de que usou para com ella.»
Aceitei a censura, e dirigindo-me ao Sr. Guido escrevi a Retractação, versos filhos d’aquelle momento, e inspirados pela leitura recente da sua carta. Se algum apreço delles faço na actualidade, é por ter feito vibrar a lyra doirada do poeta argentino. Consuelo foi o titulo que deu aos seus versos, e era effectivamente um canto de consolação e de esperança: perdi ha muito o authographo dos versos do Sr. Guido; mas o sentido, a suavidade, a sentida sympathia do seu canto, esses me ficarão no coração. — Consolações e esperanças! — Doces são, por certo, as lagrimas, que sobre nós derramão os olhos de um amigo, inda que não acreditemos no raio de esperança, que elle s’esforça por entranhar em nossa alma. Efficazes forão as suas consolações; mas ainda mal que os seus votos não tenhão de ser realisados nunca!
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