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Por que estas obras são de todo mundo

A REGRA, A ARMADILHA E COMO ESCOLHEMOS

Todo livro tem dois tipos de direito: o moral, que diz que a obra é daquele autor e sempre será, e o patrimonial, que decide quem pode publicar, vender e — no nosso caso — narrar.

O direito moral não acaba nunca. O patrimonial, sim. Quando acaba, a obra entra em domínio público: passa a pertencer a todo mundo.

A regra brasileira

No Brasil, os direitos patrimoniais duram 70 anos contados de 1º de janeiro do ano seguinte à morte do autor (Lei 9.610/98, art. 41). Na prática, em 2026 está em domínio público quem morreu até 1955.

Machado de Assis, por exemplo. Morreu em 1908. A contagem começa em 1º de janeiro de 1909 e termina 70 anos depois: desde 1979 toda a obra dele é livre. Por isso Dom Casmurro pode ser narrado sem pedir licença a ninguém.

A armadilha que derruba muita gente

Aqui está a parte que quase todo mundo erra: uma tradução é uma obra nova, com direito próprio do tradutor (art. 14).

Dostoiévski morreu em 1881 — o texto russo é livre. Mas a tradução brasileira que você encontra na livraria foi feita por alguém que talvez esteja vivo, e essa tradução não é livre. O original ser de todo mundo não torna a tradução de outra pessoa de todo mundo.

É por isso que o acervo começa por quem escreveu em português: Machado, Alencar, Eça, Camões, Lima Barreto, Maria Firmina dos Reis. Aí não há tradutor no meio do caminho.

Isso vale ao contrário também: um livro marcado como "public domain" em site estrangeiro pode não estar em domínio público no Brasil. Os Estados Unidos contam a partir da publicação, não da morte do autor — são regras diferentes, com resultados diferentes.

Como escolhemos cada obra

Antes de uma obra entrar no acervo, ela precisa passar por uma verificação — e o resultado fica registrado junto com ela:

O que verificamosPor quê
Ano de morte do autor, com fonteé o que aciona a regra dos 70 anos
Se o texto é original em portuguêsevita a armadilha da tradução
De onde veio o textoedição com notas e prefácio moderno tem direito do organizador
Crédito ao autordireito moral não expira

Na dúvida, a obra fica de fora. É melhor um acervo menor e sólido do que um catálogo grande que não se sustenta.

Onde mais encontrar estas obras

Se a obra é de todo mundo, não faz sentido existir uma porta só. Estes acervos são públicos e gratuitos, e é de vários deles que vêm os textos que narramos. Vá direto a eles sempre que quiser ler em vez de ouvir, conferir uma passagem ou procurar algo que ainda não temos.

Abrem de qualquer lugar do mundo

AcervoO que você encontra
Wikisource em portuguêstexto integral, transcrito e revisado por voluntários — a maior fonte de literatura brasileira livre
Brasiliana Guita e José Mindlin (USP)obras raras digitalizadas, muitas em primeira edição
Literatura Brasileira (UFSC)biblioteca digital de literatura de países de língua portuguesa
Arquivo Nacionaldocumentação histórica do Estado brasileiro
Academia Brasileira de Letrasbiografia e bibliografia conferidas dos autores
Project Gutenbergdomínio público mundial, com centenas de títulos em português

Oficiais, mas só abrem do Brasil

AcervoO que você encontra
Portal Domínio Público (MEC)o acervo público brasileiro mais conhecido
BNDigital (Biblioteca Nacional)milhões de documentos digitalizados do acervo da Fundação Biblioteca Nacional
BDAN (Arquivo Nacional)base digital do Arquivo Nacional
MEC Livrosprogramas de livro e leitura do Ministério da Educação
Se você está fora do Brasil, estes quatro podem recusar a conexão. Não é o seu navegador nem o link: esses acervos limitam o acesso por país. Os da tabela acima abrem de qualquer lugar do mundo.

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