Urupês
MONTEIRO LOBATO · 1918 · PRÉ-MODERNISMO
Coletânea de contos que apresenta Jeca Tatu, o caipira preguiçoso que Lobato mais tarde reconheceria como vítima do abandono social, tornando-se um dos personagens mais discutidos da cultura brasileira.
caipira · brasil rural · satira · interior paulista
Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 2 fontes no pé da página
Do artigo de jornal ao livro de estreia
Urupês, publicado em 1918, foi o primeiro livro de contos de Monteiro Lobato e o que fez seu nome. A origem está na imprensa: em 1914, Lobato, então fazendeiro no Vale do Paraíba, publicou no jornal O Estado de S. Paulo os artigos "Velha praga" e "Urupês", em que descarregava sua irritação com as queimadas e com o caboclo que as praticava; os dois foram reeditados no volume de 1918, e é com ele que Lobato estreia de fato na literatura brasileira, depois de anos publicando apenas em periódicos (ZILBERMAN, 2010). O livro reúne contos e quadros do interior paulista, escritos numa prosa vigorosa, carregada de imagens e de vocabulário regional, que destoava do tom acadêmico dominante na época.
Jeca Tatu, o caipira de cócoras
O texto que dá título ao livro apresenta seu personagem mais discutido: Jeca Tatu, o caipira que vive de cócoras à porta do casebre, planta o mínimo, não se apega à terra nem ao trabalho e vê a vida passar sem reagir. O nome do volume vem daí, urupê é um fungo que cresce em madeira podre, e Lobato usa a imagem para descrever o caboclo vegetando sobre um mundo em decomposição: na frase do próprio texto, "o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar" (LINDO, 2017). A personagem nasce já em "Velha praga", apresentada como "um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie", e é a primeira grande criação de Lobato (ZILBERMAN, 2010). O retrato é duro, deliberadamente polêmico: contra a idealização romântica do homem do campo, herdada do indianismo e do regionalismo pitoresco, Lobato opôs uma figura desenganada, feita para incomodar.
A retratação do próprio autor
A história do Jeca não terminou no livro. Poucos anos depois, envolvido na campanha pelo saneamento do interior brasileiro, o próprio Lobato reviu publicamente o retrato que criara: em textos ligados a essa campanha, sustentou que a apatia do caipira não era defeito de raça ou de caráter, mas consequência de doenças tratáveis, como as verminoses, e do abandono em que o poder público deixava o homem rural. O Jeca deixava de ser culpado para virar vítima. Em Jeca Tatuzinho, de 1924, o caboclo indolente se converte em produtor rural bem-sucedido assim que se identifica a doença que o abatia, a ancilostomíase, o amarelão (ZILBERMAN, 2010). Essa retratação, assumida pelo autor em mais de uma ocasião, tornou o personagem um caso raro: uma figura literária cujo sentido foi corrigido em público por quem a inventou, e que seguiu rendendo debate na cultura brasileira ao longo de todo o século XX.
Um marco do pré-modernismo
Para além da polêmica, Urupês tem lugar firme na história literária. Parte da crítica o considera um dos livros que abriram caminho para a renovação das décadas seguintes: pela linguagem viva e coloquial, pela atenção ao Brasil real do interior e pela disposição de tratar sem verniz temas que a literatura de salão evitava. Os demais contos do volume, casos de fazenda, dramas miúdos de arraial, tipos do vale, confirmam o narrador de mão cheia, capaz de passar da comédia à crueldade em poucas linhas. É por esse conjunto, e não só pelo Jeca, que o livro continua sendo lido mais de um século depois.
Sobre esta edição
A fonte do texto que a narração lê é o Wikisource em português. O arquivo veio de pt.wikisource.org.
Fontes
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Consultadas na íntegra
- ZILBERMAN, Regina. Monteiro Lobato e suas fases. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 36, 2010. DOI: 10.1590/2316-40183610. Disponível em: https://www.scielo.br/j/elbc/a/HJfWGQVBGYx5nMLjWRZtC5B. Acesso em: 25 ago. 2026. doi.org
- LINDO, Luiz Antônio. A heresia de Jeca Tatu. Revista de História, São Paulo, 2017. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rh/a/nsNPRp4yX3QY94scmqkMJHf. Acesso em: 25 ago. 2026. scielo.br
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