UNDERSTORY.OBRApré-modernismo · 1902

Os Sertões

EUCLIDES DA CUNHA · 1902 · PRÉ-MODERNISMO

Reportagem literária monumental sobre a Guerra de Canudos, dividida em 'A Terra', 'O Homem' e 'A Luta', revelando ao Brasil civilizado a existência de outro Brasil nos sertões da Bahia.

guerra · sertão · brasil profundo · mestiçagem

Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 3 fontes no pé da página

Canudos: a guerra que envergonhou a República

Entre 1896 e 1897, o exército da jovem República brasileira travou guerra contra um arraial de sertanejos pobres no interior da Bahia. Canudos, comunidade reunida em torno do líder religioso Antônio Conselheiro, foi tratada pelo litoral como foco de fanatismo e de restauração monarquista, e resistiu, para espanto do país, a sucessivas expedições militares antes de ser destruída. O episódio traumatizou a opinião pública: como explicar que o Brasil moderno precisasse de uma campanha de guerra para vencer um povoado de miseráveis?

Euclides da Cunha, engenheiro militar de formação e republicano convicto, acompanhou a fase final da campanha como correspondente de O Estado de S. Paulo. Os Sertões saiu em 1902 (OLIVEIRA, 2002).

O que ele pensava antes de ir, e por que isso importa

Costuma-se dizer que Euclides partiu com a versão oficial e voltou com outra. A documentação dá contorno preciso a essa frase, e ela é mais dura do que o resumo sugere.

Oliveira (2002) recolhe os dois artigos intitulados A Nossa Vendéia, que Euclides enviou a O Estado de S. Paulo e que saíram em 14 e 17 de julho de 1897: neles ele lamenta a barbárie dos sertanejos e exalta o heroísmo dos soldados da República. Em correspondência de 20 de agosto do mesmo ano, pouco menos de dois meses antes do desfecho, chama Canudos de Arraial Maldito. Não era um observador neutro que mudou de ideia diante do inesperado. Era um homem que havia escrito em público contra aquela gente e depois teve de conviver com o que viu.

O livro que nasce disso não é a reportagem de uma vitória. É a acusação escrita por alguém que participou do consenso que produziu o massacre.

A terra, o homem, a luta

A arquitetura do livro é única na literatura brasileira. Antes de narrar a guerra, Euclides constrói o palco e o protagonista: a primeira parte, A Terra, descreve o sertão baiano com instrumental de geólogo e geógrafo; a segunda, O Homem, examina o sertanejo, sua formação e sua religiosidade, e contém a formulação que se tornou uma das frases mais citadas da nossa literatura, a de que o sertanejo é antes de tudo um forte. Só então vem A Luta, o relato da campanha, que avança expedição a expedição com fôlego de epopeia.

O autor mobiliza as teorias científicas do seu tempo, inclusive teses raciais hoje inteiramente superadas, e é observável como o livro as contradiz por dentro: quanto mais ele descreve o sertanejo real, menos os esquemas disponíveis dão conta dele. Villas Bôas (1998) situa essa tensão num quadro mais amplo: a ideia de história como processo único e progressivo, herdada do Iluminismo, convivendo em Euclides com uma sensibilidade romântica pelo tempo passado.

Um livro-monumento

Oliveira (2002) descreve Os Sertões como monumento da cultura literária brasileira, indissociável da própria ideia de Brasil e tratado, ao longo de um século, como obra essencialmente nacional. A descoberta do Brasil ignorado pelo litoral letrado permanece uma chave de leitura do país, e a longa tradição de interpretações do Brasil que o século XX desenvolveria tem aqui um ponto de partida.

Por que ouvir

A prosa euclidiana é célebre pela dificuldade e pelo esplendor: períodos monumentais, vocabulário técnico e raro, antíteses em cadeia. É estilo que intimida na página.

E que se ilumina na escuta, porque o andamento é oratório, feito de ondas que sobem e rebentam. Ouvir Os Sertões é atravessar, guiado por uma das vozes mais poderosas da língua, o episódio em que o país teve de olhar para si.

Sobre esta edição

A fonte do texto que a narração lê é o Wikisource em português. O arquivo veio de pt.wikisource.org.

Fontes

Cada afirmação de fato deste ensaio se apoia nas fontes consultadas na íntegra. As de acesso parcial estão marcadas como tais e não sustentam nada aqui.

Consultadas na íntegra

  1. OLIVEIRA, Ricardo de. Euclides da Cunha, Os Sertões e a invenção de um Brasil profundo. Revista Brasileira de História, v. 22, n. 44, p. 511-537, 2002. DOI: 10.1590/s0102-01882002000200012. doi.org
  2. VILLAS BÔAS, Glaucia. Iluminista e romântico: o tempo passado em Os sertões de Euclides da Cunha. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 5, supl., p. 149-161, 1998. DOI: 10.1590/s0104-59701998000400009. doi.org

Recomendadas, não consultadas

  • FREITAS, Marcus Vinicius de. O polígrafo do sertão: ciências naturais e literatura na obra de Euclides da Cunha. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 9, n. 2, p. 427-430, 2002. DOI: 10.1590/s0104-59702002000200010. Leitura seguinte sobre o Euclides cientista. doi.org

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Como este texto foi feito

O rascunho foi escrito com ajuda de inteligência artificial. Depois disso, cada afirmação de fato deste ensaio foi conferida contra as fontes listadas acima, uma por uma. Datas, edições e números que não resistiram à conferência foram cortados em vez de arredondados. As fontes foram conferidas uma a uma, e o que não deu para conferir saiu do texto. A revisão editorial humana está concluída.

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