UNDERSTORY.OBRArealismo · 1882

O Alienista

MACHADO DE ASSIS · 1882 · REALISMO

O doutor Simão Bacamarte funda em Itaguaí o maior hospício do Brasil e começa a internar toda a cidade, numa sátira genial ao poder da ciência e à relatividade da sanidade.

loucura · poder · ciência · ironia

Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 9 fontes no pé da página

O Brasil que ouvia falar em ciência

Em 1852 abriu no Rio de Janeiro o Hospício de Pedro II, o primeiro estabelecimento da América Latina dedicado só ao tratamento de doentes mentais (TEIXEIRA; RAMOS, 2012). Com ele apareceu uma profissão que antes não existia no país: o alienista, o médico encarregado, na expressão da época, dos infelizes privados do uso da razão.

Trinta anos depois, essa figura já tinha autoridade bastante para Machado de Assis a tomar a sério como personagem. E o que ele faz com ela é econômico: em vez de discutir a psiquiatria, entrega uma vila inteira a um psiquiatra e observa.

Itaguaí tem câmara de vereadores, barbeiro, beatas e nenhum contrapeso. É pequena o suficiente para caber num experimento e povoada o suficiente para ter todos os papéis ocupados. A pergunta que a novela arma não é se Simão Bacamarte está certo. É quem decide onde termina a razão, e o que sobra dessa fronteira quando um homem só responde por ela.

Onde Machado estava quando escreveu isto

Ele tinha 42 anos. Nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839 e vinha de publicar, em 1881, Memórias póstumas de Brás Cubas, o livro que partiu a sua obra em antes e depois (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 2026a, 2026b).

O Alienista saiu em capítulos na revista A Estação, do Rio, entre 15 de outubro de 1881 e 15 de março de 1882 (PIRES, 2017). No ano seguinte foi recolhido em Papéis avulsos, um volume de doze textos que a crítica veio a tratar como o primeiro livro de contos da chamada segunda maneira machadiana (SALLA; AGUILAR, 2019). A primeira edição teve 950 exemplares, impressos na casa Lombaerts; Machado a repassou ao editor B. L. Garnier como venda e recebeu o pagamento em outubro de 1882 (GRANJA, 2024).

Um detalhe que muda a leitura: entre o folhetim e o livro ele mexeu no texto, e mexeu sobretudo no capítulo final (PIRES, 2017). A novela que se lê hoje é a segunda versão de um autor que ainda estava decidindo como terminar.

A ciência como personagem

Simão Bacamarte entra em cena apresentado como "filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas" (ASSIS, 1994). A solenidade é o material da piada.

O truque está na voz. Machado escreve no idioma da ciência que examina: o narrador cita crônicas de Itaguaí como quem cita fonte, usa o vocabulário dos tratados e não pisca uma vez em quinze capítulos. Carlos Pires (2017) descreve o efeito como oscilação: o narrador se aproxima e se afasta da autoridade científica de Bacamarte sem nunca assumir posição, e é dessa recusa que a ironia se sustenta. Nada no texto avisa o leitor de que ali há sátira. Ele tem de perceber sozinho, e é esse trabalho que faz a novela funcionar.

Vale dizer que ela não envelheceu: ficou aplicável. Internar, classificar, medir, decidir por quem não pode responder por si. A lista continua em uso, e a Casa Verde continua sendo o jeito mais rápido de descrever o que acontece quando uma pessoa só detém o poder de dizer quem está bem.

O que a primeira crítica já tinha visto

Não foi preciso esperar o século XX. Quando Papéis avulsos chegou às livrarias, uma resenha anônima em O Fluminense de 3 de novembro de 1882 chamou O Alienista de "notável pelo seu humorismo" e leu a história como demonstração do rifão de que todo homem tem sua veia de doido (O FLUMINENSE, 1882 apud SALLA; AGUILAR, 2019).

É uma leitura morna para o que o texto faz, e ao mesmo tempo já aponta o incômodo certo: se a loucura está distribuída por todo mundo, o que está em jogo é o critério, não o diagnóstico.

Por que ouvir

O texto nasceu em capítulos curtos com fecho a cada entrega, porque era isso que uma revista quinzenal pedia. Esse ritmo sobrevive na escuta melhor do que na página.

E a ironia de Machado é feita de coisas que a voz executa e o olho às vezes atropela: a ressalva, a pausa antes de concordar, o elogio que se desdiz na segunda metade da frase. Ouvindo, o tempo da piada é o do narrador, e não o seu.

Sobre esta edição

A fonte do texto que a narração lê é o corpus machado do NLTK, que reproduz a Obra completa publicada pela Nova Aguilar em 1994, em grafia moderna. O arquivo veio de raw.githubusercontent.com. A escolha foi deliberada: no fac-símile de época a síntese de voz lia grafias como chronicas e Itaguahy ao pé da letra, o que soa como erro de leitura em vez de marca histórica.

Fontes

Cada afirmação de fato deste ensaio se apoia nas fontes consultadas na íntegra. As de acesso parcial estão marcadas como tais e não sustentam nada aqui.

Consultadas na íntegra

  1. PIRES, Carlos. Oscilações do narrador em "O Alienista", de Machado de Assis. Machado de Assis em Linha, v. 10, n. 21, p. 142-161, ago. 2017. DOI: 10.1590/1983-6821201710218. doi.org
  2. SALLA, Thiago Mio; AGUILAR, Luiza Helena Damiani. A recepção de Papéis avulsos e a cristalização de lugares-comuns da crítica machadiana: proposta analítica e editorial. Machado de Assis em Linha, v. 12, n. 27, maio/ago. 2019. DOI: 10.1590/1983-6821201912272. doi.org
  3. GRANJA, Lúcia. Machado de Assis, o editor (e seus embates): de Helena (1876) a Papéis avulsos (1882). Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 26, 2024. DOI: 10.1590/2596-304x202426e20240972. doi.org
  4. TEIXEIRA, Manoel Olavo Loureiro; RAMOS, Fernando A. de Cunha. As origens do alienismo no Brasil: dois artigos pioneiros sobre o Hospício de Pedro II. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 15, n. 2, p. 211-230, 2012. DOI: 10.1590/S1415-47142012000200011. doi.org
  5. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Machado de Assis: biografia. Rio de Janeiro: ABL, 2026a. Consultado em 11 de agosto de 2026. academia.org.br
  6. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Machado de Assis: bibliografia. Rio de Janeiro: ABL, 2026b. Consultado em 11 de agosto de 2026. academia.org.br
  7. ASSIS, Machado de. O alienista. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Edição-base da narração, obtida do corpus machado do NLTK (arquivo machado/contos/macn003.txt). nltk.org

Consultadas apenas em resumo

  1. MOREIRA, Ana Cleide Guedes; BERLINCK, Manoel Tosta. Mania de saber: ironia e melancolia em O alienista, de Machado de Assis. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 6, n. 2, abr./jun. 2003. DOI: 10.1590/1415-47142003002007. Do texto integral só o resumo ficou acessível; nenhuma afirmação deste ensaio se apoia nele. doi.org

Recomendadas, não consultadas

  • Revista Machado de Assis em Linha (USP), arquivo completo em acesso aberto. Leitura recomendada para quem quiser ir além do que este ensaio cobre. scielo.br

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Como este texto foi feito

O rascunho foi escrito com ajuda de inteligência artificial. Depois disso, cada afirmação de fato deste ensaio foi conferida contra as fontes listadas acima, uma por uma. Datas, edições e números que não resistiram à conferência foram cortados em vez de arredondados. As fontes foram conferidas uma a uma, e o que não deu para conferir saiu do texto. A revisão editorial humana está concluída.

A assinatura é coletiva: Equipe Subsolo Ponto. Quem responde pelo texto publicado somos nós, não a ferramenta.

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