UNDERSTORY.OBRAmodernismo · 1934

Mensagem

FERNANDO PESSOA · 1934 · MODERNISMO

O único livro em português que Pessoa publicou em vida: a história de Portugal relida como mito e profecia.

Coleções: Literatura Portuguesa · Modernismo

Temas: mito · Portugal · destino · sebastianismo

Mensagem, na íntegra

É o texto completo, em domínio público — o mesmo que sai no arquivo EPUB. A grafia é a da fonte de onde ele foi transcrito: em obras do século XIX ela difere da atual, e não é erro de digitação.

Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.

A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.

A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.

Notas

↑ A epígrafe, em latim, trata das cinco qualidades ou condições que “o entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete”. (Fernando Pessoa. Obra Poética. Volume único. Rio: Nova Aguilar, 1981, p. 3). O próprio Pessoa a teria traduzido – não literalmente – por “Bendito seja Deus Nosso Senhor, que nos deu o Verbo” (A Procura da Verdade Oculta-Textos filosóficos e esotéricos, apresentados e anotados por António Quadros, Livros de Bolso Europa-América nº 471.). Na tradução de Pessoa, "Verbo" deve significar “palavra” que, afinal, é também um símbolo, tão demiúrgico quanto o é o “Verbo que se fez homem”. Contudo, uma tradução menos livre seria “Bendito seja Deus Nosso Senhor que nos deu o símbolo".

A Europa jaz, posta nos cotovellos:

De Oriente a Occidente jaz, fitando,

E toldam-lhe romanticos cabellos

Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;

O direito é em angulo disposto.

Aquelle diz Italia onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal.

O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

Vendem os Deuses o que dão.

A gloria compra-se a desgraça.

Ai dos felizes, porque são

Só o que passa!

Baste a quem basta o que lhe basta!

O bastante de lhe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta:

Ter é tardar.

Foi com desgraça e com vileza

Que Deus ao Christo definiu :

Assim o oppoz à Natureza

E Filho o ungiu

O mytho é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mytho brilhante e mudo

O corpo morto de Deus,

Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos creou.

Assim a lenda se escorre

A entrar na realidade,

E a fecundal-a decorre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.

Se a alma que sente e faz conhece

Só porque lembra o que esqueceu,

Vivemos, raça, porque houvesse

Memoria em nós do instincto teu.

Nação porque reincarnaste,

Povo porque resuscitou

Ou tu, ou o de que eras a haste —

Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquella fria

Luz que precede a madrugada,

E é já o ir a haver o dia

Na antemanhã, confuso nada.

Todo começo é involuntario.

Deus é o agente.

O heroe a si assiste, vario

E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada

Teu olhar desce.

«Que farei eu com esta espada?»

Ergueste-a, e fez-se.

As nações todas são mysterios.

Cada uma é todo o mundo a sós.

Ó mãe de reis e avó de imperios,

Vella por nós!

Teu seio augusto amamentou

Com bruta e natural certeza

O que, imprevisto, Deus fadou.

Por elle resa!

Dê tua prece outro destino

A quem fadou o instincto teu!

O homem que foi o teu menino

Envelheceu.

Mas todo vivo é eterno infante

Onde estás e não ha o dia.

No antigo seio, vigilante,

De novo o cria!

Pae, foste cavalleiro.

Hoje a vigilia é nossa.

Dá-nos o exemplo inteiro

E a tua inteira força!

Dá, contra a hora em que, errada,

Novos infieis vençam,

A benção como espada,

A espada como benção!

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo

O plantador de naus a haver,

E ouve um silencio murmuro comsigo:

É o rumor dos pinhaes que, como um trigo

De Imperio, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,

Busca o oceano por achar;

E a falla dos pinhaes, marulho obscuro,

É o som presente d'esse mar futuro,

É a voz da terra anciando pelo mar.

O homem e a hora são um só

Quando Deus faz e a história é feita.

O mais é carne, cujo pó

A terra espreita.

Mestre, sem o saber, do Templo

Que Portugal foi feito ser,

Que houveste a gloria e deste o exemplo

De o defender.

Teu nome, eleito em sua fama,

É, na ara da nossa alma interna,

A que repelle, eterna chamma,

A sombra eterna.

Que enigma havia em teu seio

Que só genios concebia?

Que archanjo teus sonhos veio

Vellar, maternos, um dia?

Volve a nós teu rosto serio,

Princeza do Santo Gral,

Humano ventre do Imperio,

Madrinha de Portugal!

Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.

A regra de ser Rei almou meu ser,

Em dia e letra escrupuloso e fundo.

Firme em minha tristeza, tal vivi.

Cumpri contra o Destino o meu dever.

Inutilmente? Não, porque o cumpri.

Deu-me Deus o seu gladio, porque eu faça

A sua santa guerra.

Sagrou-me seu em honra e em desgraça,

Às horas em que um frio vento passa

Por sobre a fria terra.

Poz-me as mãos sobre os hombros e doirou-me

A fronte com o olhar;

E esta febre de Além, que me consome,

E este querer grandeza são seu nome

Dentro em mim a vibrar.

E eu vou, e a luz do gladio erguido dá

Em minha face calma.

Cheio de Deus, não temo o que virá,

Pois, venha o que vier, nunca será

Maior do que a minha alma.

Notas

↑ Na impressão original consta ombros; texto corrigido conforme a errata.

Claro em pensar, e claro no sentir,

E claro no querer;

Indifferente ao que ha em conseguir

Que seja só obter;

Duplice dono, sem me dividir,

De dever e de ser —

Não me podia a Sorte dar guarida

Por eu não ser dos seus.

Assim vivi, assim morri, a vida.

Calmo sob mudos céus,

Fiel à palavra dada e à idéa tida.

Tudo mais é com Deus!

Não fui alguem. Minha alma estava estreita

Entre tam grandes almas minhas pares,

Inutilmente eleita,

Virgemmente parada;

Porque é do portuguez, pae de amplos mares,

Querer, poder só isto:

O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —

O todo, ou o seu nada.

Louco, sim, louco, porque quiz grandeza

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;:

Porisso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que ha.

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nella ia.

Sem a loucura o que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadaver addiado que procria?

Que aureola te cerca?

É a espada que, volteando,

Faz que o ar alto perca

Seu azul negro e brando.

Mas que espada é que, erguida,

Faz esse halo no céu?

E' Excalibur, a ungida,

Que o Rei Arthur te deu.

Sperança consummada,

S. Portugal em ser,

Ergue a luz da tua espada

Para a estrada se ver!

Em seu throno entre o brilho das espheras,

Com seu manto de noite e solidão,

Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —

O unico imperador que tem, deveras,

O globo mundo em sua mão.

Braços cruzados, fita além do mar.

Parece em promontorio uma alta serra —

O limite da terra a dominar

O mar que possa haver além da terra.

Seu formidavel vulto solitario

Enche de estar presente o mar e o céu,

E parece temer o mundo vario

Que elle abra os braços e lhe rasgue o véu.

De pé, sobre os paizes conquistados

Desce os olhos cansados

De ver o mundo e a injustiça e a sorte.

Não pensa em vida ou morte,

Tam poderoso que não quer o quanto

Póde, que o querer tanto

Calcára mais do que o submisso mundo

Sob o seu passo fundo.

Trez imperios do chão lhe a Sorte apanha.

Creou-os como quem desdenha.

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.

Deus quiz que a terra fosse toda uma,

Que o mar unisse, já não separasse.

Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,

Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

E viu-se a terra inteira, de repente,

Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou creou-te portuguez.

Do mar e nós em ti nos deu signal.

Cumpriu-se o Mar, e o Imperio se desfez.

Senhor, falta cumprir-se Portugal!

O' mar anterior a nós, teus medos

Tinham coral e praias e arvoredos.

Desvendadas a noite e a cerração,

As tormentas passadas e o mysterio,

Abria em flor o Longe, e o Sul siderio

Splendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longinqua costa —

Quando a nau se approxima ergue-se a encosta

Em arvores onde o Longe nada tinha;

Mais perto, abre-se a terra em sons e cores;

E, no desembarcar, ha aves, flores,

Onde era só, de longe a abstracta linha.

O exforço é grande e o homem é pequeno.

Eu, Diogo Cão, navegador, deixei

Este padrão ao pé do areal moreno

E para deante naveguei.

A alma é divina e a obra é imperfeita.

Este padrão signala ao vento e aos céus

Que, da obra ousada, é minha a parte feita:

O por-fazer é só com Deus.

E ao immenso e possivel oceano

Ensinam estas Quinas, que aqui vês,

Que o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é portuguez.

E a Cruz ao alto diz que o que me ha na alma

E faz a febre em mim de navegar

Só encontrará de Deus na eterna calma

O porto sempre por achar.

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou trez vezes,

Voou trez vezes a chiar,

E disse, «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo,

«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou trez vezes,

Trez vezes rodou immundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguem me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse,

«El-Rei D. João Segundo!»

Trez vezes do leme as mãos ergueu

Trez vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de temer trez vezes,

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

Notas

↑ Texto corrigido conforme a errata.

Jaz aqui, na pequena praia extrema,

O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,

O mar é o mesmo: já ninguem o tema!

Atlas, mostra alto o mundo no seu hombro.

Outros haverão de ter

O que houvermos de perder.

Outros poderão achar

O que, no nosso encontrar,

Foi achado, ou não achado,

Segundo o destino dado.

Mas o que a elles não toca

É a Magia que evoca

O Longe e faz d'elle historia.

E porisso a sua gloria

É uma justa aureola dada

Por uma luz emprestada.

Com duas mãos — o Acto e o Destino —

Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu

Uma ergue o facho tremulo e divino

E a outra afasta o véu.

Fosse a hora que haver ou a que havia

A mão que ao Occidente o véu rasgou,

Foi alma a Sciencia e corpo a Ousadia

Da mão que desvendou.

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal

A mão que ergueu o facho que luziu,

Foi Deus a alma e o corpo Portugal

Da mão que o conduziu.

No valle clareia uma fogueira.

Uma dança sacode a terra inteira.

E sombras disformes e descompostas

Em clarões negros do valle vão

Subitamente pelas encostas,

Indo perder-se na escuridão.

De quem é a dança que a noite aterra?

São os Titans, os filhos da Terra,

Que dançam da morte do marinheiro

Que quiz cingir o materno vulto —

Cingil-o, dos homens, o primeiro —,

Na praia ao longe por fim sepulto.

Dançam, nem sabem que a alma ousada

Do morto ainda commanda a armada,

Pulso sem corpo ao leme a guiar

As naus no resto do fim do espaço:

Que até ausente soube cercar

A terra inteira com seu abraço.

Violou a Terra. Mas elles não

O sabem, e dançam na solidão;

E sombras disformes e descompostas,

Indo perder-se nos horizontes,

Galgam do valle pelas encostas

Dos mudos montes.

Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra

Suspendem de repente o odio da sua guerra

E pasmam. Pelo valle onde se ascende aos céus

Surge um silencio, e vae, da nevoa ondeando os véus.

Primeiro um movimento e depois um assombro.

Ladeiam-o, ao durar, os medos, hombro a hombro,

E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões

Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta

Cahe-lhe, e em extase vê, à luz de mil trovões,

O céu abrir o abysmo à alma do Argonauta.

O' mar salgado, quanto do teu sal

São lagrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão resaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,

Mas nelle é que espelhou o céu.

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,

E erguendo, como um nome, alto o pendão

Do Imperio,

Foi-se a ultima nau, ao sol aziago

Erma, e entre choros de ancia e de presago

Mysterio.

Não voltou mais. A que ilha indescoberta

Aportou? Voltará da sorte incerta

Que teve?

Deus guarda o corpo e a fórma do futuro,

Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro

E breve.

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,

Mais a minha alma atlantica se exalta

E entorna,

E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,

Vejo entre a cerração teu vulto baço

Que torna.

Não sei a hora, mas sei que ha a hora.

Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora

Mysterio.

Surges ao sol em mim, e a nevoa finda:

A mesma, e trazes o pendão ainda

Do Imperio.

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

Tanta foi a tormenta e a vontade!

Restam-nos hoje, no silencio hostil,

O mar universal e a saudade.

Mas a chamma, que a vida em nós creou,

Se — ainda ha vida ainda não é finda.

O frio morto em cinzas a occultou:

A mão do vento póde erguel-a ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ancia—,

Com que a chamma do exforço se remoça,

E outra vez conquistemos a Distancia—

Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Sperae! Cahi no areal e na hora adversa

Que Deus concede aos seus

Para o intervallo em que esteja a alma immersa

Em sonhos que são Deus.

Que importa o areal e a morte e a desventura

Se com Deus me guardei?

É o que eu me sonhei que eterno dura,

É Esse que regressarei.

Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa,

Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!

Vive porque a vida dura.

Nada na alma lhe diz

Mais que a lição da raiz —

Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem

No tempo que em eras vem.

Ser descontente é ser homem.

Que as forças cegas se domem

Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro

Tempos do ser que sonhou,

A terra será theatro

Do dia claro, que no atro

Da erma noite começou.

Grecia, Roma, Christandade,

Europa — os quatro se vão

Para onde vae toda edade.

Quem vem viver a verdade

Que morreu D. Sebastião?

Onde quer que, entre sombras e dizeres,

Jazas, remoto, sente-te sonhado,

E ergue-te do fundo de não-seres

Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com patria, erguer de novo,

Mas ja no auge da suprema prova,

A alma penitente do teu povo

À Eucharistia Nova.

Mestre da Paz, ergue teu gladio ungido,

Excalibur do Fim, em geito tal

Que sua Luz ao mundo dividido

Revele o Santo Gral!

Que voz vem no som das ondas

Que não é a voz do mar?

É a voz de alguem que nos falla,

Mas que, se escutamos, cala,

Por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,

Sem saber de ouvir ouvimos,

Que ella nos diz a esperança

A que, como uma criança

Dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas,

São terras sem ter logar,

Onde o Rei mora esperando.

Mas, se vamos dispertando,

Cala a voz, e ha só o mar.

Que symbolo fecundo

Vem na aurora anciosa?

Na Cruz morta do Mundo

A Vida, que é a Rosa.

Que symbolo divino

Traz o dia já visto?

Na Cruz, que é o Destino,

A Rosa, que é o Christo.

Que symbolo final

Mostra o sol já disperto?

Na Cruz morta e fatal

A Rosa do Encoberto.

Sonhava, anonymo e disperso,

O Imperio por Deus mesmo visto,

Confuso como o Universo

E plebeu como Jesus Christo

Não foi nem santo nem heroe,

Mas Deus sagrou com Seu signal

Este, cujo coração foi

Não portuguez mas Portugal.

O céu strella o azul e tem grandeza.

Este, que teve a fama e à gloria tem,

Imperador da lingua portugueza,

Foi-nos um céu tambem.

No immenso espaço seu de meditar,

Constellado de fórma e de visão,

Surge, prenuncio claro do luar,

El-Rei D. Sebastião.

Mas não, não é luar: é luz do ethereo.

E' um dia; e, no céu amplo de desejo,

A madrugada irreal do Quinto Imperio

Doira as margens do Tejo.

Screvo meu livro à beira-magua.

Meu coração não tem que ter.

Tenho meus olhos quentes de agua.

Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar

Meus dias vacuos enche e doura.

Mas quando quererás voltar?

Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Christo

De a quem morreu o falso Deus,

E a dispertar do mal que existo

A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,

Sonho das eras portuguez,

Tornar-me mais que o sopro incerto

De um grande anceio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,

Fazer minha esperança amor?

Da nevoa e da saudade quando?

Quando, meu Sonho e meu Senhor?

A nau de um d'elles tinha se perdido

No mar indefinido.

O segundo pediu licença ao Rei

De, na fé e na lei

Da descoberta ir em procura

Do irmão no mar sem fim e a nevoa escura.

Tempo foi. Nem primeiro nem segundo

Volveu do fim profundo

Do mar ignoto à patria por quem dera

O enigma que fizera.

Então o terceiro a El-Rei rogou

Licença de os buscar, e El-Rei negou.

Como a um captivo, o ouvem a passar

Os servos do solar.

E, quando o vêem, vêem a figura

Da febre e da amargura,

Com fixos olhos rasos de ancia

Fitando a prohibida azul distancia.

Senhor, os dois irmãos do nosso Nome—

O Poder e o Renome —

Ambos se foram pelo mar da edade

À tua eternidade;

E com elles de nós se foi

O que faz a alma poder ser de heroe,

Queremos ir buscal-os, d'esta vil

Nossa prisão servil:

É a busca de quem somos, na distancia

De nós; e, em febre de ancia,

A Deus as mãos alçamos.

Mas Deus não dá licença que partamos.

Que jaz no abysmo sob o mar que se ergue?

Nós, Portugal, o poder ser.

Que inquietação do fundo nos soergue?

O desejar poder querer.

Isto, e o mysterio de que a noite é o fausto...

Mas subito, onde o vento ruge,

O relampago, pharol de Deus, um hausto

Brilha, e o mar scuro struge.

Que costa é que as ondas contam

E se não póde encontrar

Por mais naus que haja no mar?

O que é que as ondas encontram

E nunca se vê surgindo?

Este som de o mar praiar

Onde é que está existindo?

Ilha próxima e remota,

Que nos ouvidos persiste,

Para a vista não existe.

Que nau, que armada, que frota

Póde encontrar o caminho

À praia onde o mar insiste,

Se á vista o mar é sósinho?

Haverá rasgões no espaço

Que dêem para outro lado,

E que, um d'elles encontrado,

Aqui, onde ha só sargaço,

Surja uma ilha velada,

O paiz afortunado

Que guarda o Rei desterrado

Em sua vida encantada?

O mostrengo que está no rim do mar

Veio das trevas a procurar

A madrugada do novo dia,

Do novo dia sem acabar;

E disse, «Quem é que dorme a lembrar

Que desvendou o Segundo Mundo,

Nem o Terceiro quer desvendar?»

E o som na treva de elle rodar

Faz mau o somno, triste o sonhar.

Rodou e foi-se o mostrengo servo

Que seu senhor veio aqui buscar.

Que veio aqui seu senhor chamar —

Chamar Aquelle que está dormindo

E foi outrora Senhor do Mar.

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer —

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fatuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ancia distante perto chora?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Valete, Fratres.

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