UNDERSTORY.OBRAmodernismo · 1928

Macunaíma

MÁRIO DE ANDRADE · 1928 · MODERNISMO

O herói sem nenhum caráter atravessa o Brasil inteiro atrás da muiraquitã, e o país se revela em mito, piada e língua falada.

identidade · folclore · brasilidade · sátira

Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 3 fontes no pé da página

O herói sem nenhum caráter chega em 1928

Quando Macunaíma saiu em livro, em 1928, o Modernismo brasileiro já havia passado pelo escândalo da Semana de Arte Moderna de 1922, e Mário de Andrade era uma de suas figuras centrais: poeta, musicólogo, pesquisador incansável da cultura popular. O subtítulo que acompanha o protagonista, o herói sem nenhum caráter, anuncia o programa do livro: um personagem que nasce na floresta, atravessa o país atrás da muiraquitã perdida e vai revelando, em suas metamorfoses e trapaças, um Brasil feito de mito, piada e língua falada.

Nos primeiros capítulos ele enfrenta monstros da mitologia indígena, como o Curupira, e encontra Ci, a Mãe do Mato, que o faz Imperador da região e lhe dá a pedra verde sagrada, a muiraquitã (FARIA, 2006). É a perda dessa pedra que põe o resto do livro em movimento.

Por que Mário chamou o livro de rapsódia

Mário de Andrade evitou a palavra romance. Merlo (2025) mostra que o termo preferido pelo autor, rapsódia, aparece nos prefácios, em cartas a amigos e na carta aberta que ele endereçou a Raimundo Moraes, publicada no Diário Nacional em 20 de setembro de 1931. Nos prefácios não publicados, Mário chegou a dizer que a obra não passava de uma antologia do folclore brasileiro.

É uma descrição precisa do método. O livro emenda lendas, provérbios, superstições, modismos de fala de várias regiões, nomes de plantas e bichos, tudo embaralhado de propósito. A geografia salta de um ponto a outro do país, e expressões do Norte convivem com a metrópole que o herói encontra. Fazer da língua escrita um retrato da língua que os brasileiros efetivamente falam é uma das apostas do livro.

As fontes indígenas e a resposta ao plágio

O nome Macunaíma vem das narrativas dos povos do extremo norte, e a relação do livro com a etnografia é documentada: Mário trabalhou sobre os relatos reunidos pelo etnólogo alemão Theodor Koch-Grünberg (FARIA, 2006).

Quando a acusação de plágio veio a público, a resposta foi a carta de 1931. Nela Mário assume a cópia como procedimento. Diz que copiou, e que o espanta reduzirem a cópia dele a Koch-Grünberg quando copiou todos, somando ainda incidentes que viu, modismos, locuções e tradições ainda não registradas em livro (ANDRADE, 1931 apud MERLO, 2025). O escritor paraense Raimundo Moraes, a quem a carta se dirige, o havia defendido em Meu dicionário de cousas da Amazônia, do mesmo ano (MERLO, 2025). O episódio virou peça clássica das discussões sobre criação e apropriação na literatura brasileira.

O que a rapsódia deixou de fora

Há uma crítica ao livro que merece estar aqui, e não é sobre estilo. Faria (2006) contrasta o espaço natural de Macunaíma, construído como anterior a toda historicidade, com o ambiente extremamente conflituoso em que Koch-Grünberg de fato colheu os relatos sobre Makunaima. O argumento é que a natureza estetizada herdada do Romantismo acabou encobrindo a violência que constitui aquilo que ainda hoje se entende como realidade nacional.

Dito de outro modo: a floresta de onde o herói sai não é o lugar onde as histórias foram recolhidas. Saber disso não diminui o livro. Muda o que se ouve nele.

Por que ouvir

Macunaíma é feito de língua falada: modismos, ditos, repetições, um narrador que muda de registro no meio da frase. Foi montado a partir de material de tradição oral e mantém o andamento dela.

É o tipo de texto que a página achata e a voz devolve: a piada tem tempo, o refrão tem cadência, e o sotaque deixa de ser grafia estranha para virar som.

Sobre esta edição

A fonte do texto que a narração lê é o Wikisource em português. O arquivo veio de pt.wikisource.org.

Fontes

Cada afirmação de fato deste ensaio se apoia nas fontes consultadas na íntegra. As de acesso parcial estão marcadas como tais e não sustentam nada aqui.

Consultadas na íntegra

  1. FARIA, Daniel. Makunaima e Macunaíma: entre a natureza e a história. Revista Brasileira de História, v. 26, n. 51, p. 263-280, 2006. DOI: 10.1590/s0102-01882006000100013. doi.org
  2. MERLO, Hugo. Evento, historicidade e mito em Macunaíma (1928) de Mário de Andrade. Varia Historia, v. 41, 2025. DOI: 10.1590/0104-87752025v41e25013. doi.org

Recomendadas, não consultadas

  • Revista Brasileira de História, arquivo em acesso aberto. Leitura seguinte para quem quiser o debate historiográfico em torno do livro. scielo.br

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O rascunho foi escrito com ajuda de inteligência artificial. Depois disso, cada afirmação de fato deste ensaio foi conferida contra as fontes listadas acima, uma por uma. Datas, edições e números que não resistiram à conferência foram cortados em vez de arredondados. As fontes foram conferidas uma a uma, e o que não deu para conferir saiu do texto. A revisão editorial humana está concluída.

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