UNDERSTORY.OBRAarcadismo · 1781

Caramuru

SANTA RITA DURÃO · 1781 · ARCADISMO

Poema épico sobre Diogo Álvares Correia, o português náufrago que viveu entre os tupinambás na Bahia e tornou-se figura lendária chamada Caramuru.

descobrimento · indigenismo · epopeia · bahia colonial

Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 3 fontes no pé da página

Um náufrago vira lenda

No começo do século XVI, o português Diogo Álvares Correia naufragou na costa da Bahia e sobreviveu entre os tupinambás, com quem viveu por décadas, casado com Paraguaçu, filha de chefe indígena, e conhecido pelo nome de Caramuru. A história, misto de fato documentado e lenda acumulada, circulava havia mais de dois séculos quando frei José de Santa Rita Durão decidiu transformá-la em epopeia. O resultado, publicado em Lisboa em 1781 sob o título Caramuru, poema épico do descobrimento da Bahia, é uma obra da poesia colonial em língua portuguesa (RIAUDEL, [s.d.]).

Durão seguiu o modelo camoniano da épica portuguesa: como Os Lusíadas de Camões, seu poema se organiza em dez cantos de oitavas rimadas, com invocação, proposição e o aparato do gênero (FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, [s.d.]). Mas a matéria é outra, em lugar da viagem à Índia, o encontro entre um europeu náufrago e os povos do litoral baiano; em lugar do mar Índico, o recôncavo, as matas e os costumes do Brasil quinhentista.

Um mineiro em Coimbra sonhando com a Bahia

Santa Rita Durão nasceu em Minas Gerais por volta de 1722 e ainda menino foi levado para Portugal, onde se fez frade agostiniano e doutor em teologia, com carreira ligada à Universidade de Coimbra. Escreveu o Caramuru já no fim da vida, morreu em 1784, três anos após a publicação, e declarou no prólogo o amor à terra natal como motor do poema. Esse detalhe importa: o épico foi escrito de longe, por um brasileiro que passou a vida adulta na Europa, reconstruindo o Brasil a partir de crônicas, relatos de viajantes e memória afetiva.

O poema pertence ao Arcadismo, movimento de gosto neoclássico do século XVIII luso-brasileiro, e dialoga, na história literária, com O Uraguai de Basílio da Gama: os dois poemas têm matéria americana e presença central do indígena.

O Brasil descrito verso a verso

O interesse do Caramuru inclui seu lado de enciclopédia poética. Durão dedica estrofes e estrofes à fauna, à flora, à geografia e aos costumes dos tupinambás, guerra, culinária, ritos, crenças, filtrados pelo olhar de um frade católico do século XVIII, que condena o que vê como barbárie ao mesmo tempo que o descreve com evidente fascínio. Uma leitura possível do poema observa a tensão entre o juízo do missionário e a curiosidade do observador.

Entre os episódios, ganhou vida própria o de Moema, a jovem indígena apaixonada por Diogo, passagem que inspirou pintores e poetas do século seguinte.

Da recepção fria ao mito de fundação

No seu tempo, o poema teve acolhida discreta, e Durão não chegou a ver sua obra reconhecida. No século XIX, adaptações e releituras românticas reabriram sua circulação: encontraram no Caramuru um repertório de cenas fundadoras, o náufrago, a princesa indígena, o encontro de dois mundos. Essas releituras aproximaram o poema do indianismo romântico, e Diogo e Paraguaçu passaram a integrar o imaginário nacional (RIAUDEL, [s.d.]). Ouvir o poema hoje é visitar duas épocas de uma vez: o século XVI que ele narra e o século XVIII que o narra, cada um com suas ideias, seus preconceitos e seu deslumbramento diante da terra.

Sobre esta edição

A fonte do texto que a narração lê é o Wikisource em português. O arquivo veio de pt.wikisource.org.

Fontes

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Consultadas na íntegra

  1. RIAUDEL, Michel. Caramuru herói transatlântico. BNDigital, [s.d.]. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/dossie-antigo/logicas-coloniais/escritos-e-correspondencias/caramuru-heroi-transatlantico/. Acesso em: 23 ago. 2026. bndigital.bn.gov.br
  2. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Literatura colonial. Rede da Memória Virtual Brasileira. Rio de Janeiro: BNDigital, [s.d.]. Disponível em: https://bndigital.bn.gov.br/dossies/rede-da-memoria-virtual-brasileira/literatura/literatura-colonial/. Acesso em: 23 ago. 2026. bndigital.bn.gov.br

Recomendadas, não consultadas

  • RIBEIRO, Maria Aparecida. Moema, um episódio romântico no Barroco brasileiro e suas projeções até os nossos dias. Veredas, Santiago de Compostela, v. 19, p. 71-92, 2013. Disponível em: https://revistaveredas.org/index.php/ver/article/download/32/32. Acesso em: 23 ago. 2026. revistaveredas.org

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