A Morgadinha de Val-D'Amores/Entre a Flauta e a Viola: Theatro Comico de Camillo Castello Branco
CAMILO CASTELO BRANCO · ROMANTISMO
Quem manda melhor: quem age ou quem sabe ocupar a fala? Em A Morgadinha de Val-D'Amores, Frederico troca o emprego fiscal pela liderança de uma revolta enquanto Joana, sua amada, enfrenta os perigos que ele prefere comentar. Em Entre a Flauta e a Viola, dois pretendentes transformam música e verso em armas de cortejo, até uma serenata alcançar o ouvido errado. As duas comédias aproximam política e namoro para testar discursos que prometem autoridade. Uma porta fechada e a escolha da plateia decidem quanto essa autoridade dura.
Ensaio da Equipe Subsolo Ponto · 2 fontes no pé da página
Quando a fala quer mandar
As duas peças reunidas no Theatro Comico de 1871, uma comédia em três atos e um entremez em um ato, colocam a fala à prova (CASTELO BRANCO, 1871). Em A Morgadinha de Val-D'Amores, discursos políticos disputam uma revolta e um casamento. Em Entre a Flauta e a Viola, uma serenata disputa uma moça. Mudam a escala e os instrumentos, mas permanece a pergunta: quanto poder existe numa voz quando os atos começam a desmenti-la?
Frederico ajusta os princípios ao cargo que deseja
Frederico Artur da Costa é escrivão da fazenda de Santo Tirso; ama Joana, a morgada de Val-d'Amores, e quer vencer a resistência de Pantaleão Cogominho de Encerrabodes, pai da jovem e defensor da própria linhagem (CASTELO BRANCO, 1871). Ele fala sem descanso. Comenta política, imprensa, crítica literária, emprego público e conveniência amorosa com a mesma facilidade. Sua eloquência acomoda princípios contrários conforme a ocasião. A sátira acompanha esse movimento e não lhe permite uma posição confortável: o funcionário pode virar revolucionário assim que a revolução oferece uma carreira melhor. É um traço que a crítica reconhece no autor, intransigente com a estupidez e intolerante com a arrogância dos poderes, e que nunca reivindicou para a sua ficção nenhum desígnio moralizador: a responsabilidade de fazer com ela o que entendessem cabia aos leitores (BAPTISTA, 2025).
Joana age enquanto Frederico representa
Joana fornece o contraste. Quando Frederico corre perigo numa feira, é ela quem se disfarça de homem e o salva. Depois, ele veste roupa de professora de piano para entrar na casa dela. As trocas de roupa não servem apenas ao equívoco visual. Elas mostram quem consegue agir e quem depende de uma representação para atravessar a porta. Joana enfrenta o risco; Frederico encena a coragem, até que a multidão invade o espaço privado e transforma sua retórica em comando político.
Os revoltosos querem destruir registros fiscais: na peça, dão morras aos papéis e pedem que se queime o escrivão da fazenda (CASTELO BRANCO, 1871). Frederico, antes agente da cobrança, converte-se em líder por saber falar ao grupo. O namoro e a rebelião encontram uma solução conjunta: ele abandona o posto, conquista Pantaleão e termina associado à nova ordem que acaba de proclamar. A vitória não prova a firmeza de suas convicções. Prova que, naquela comédia, a frase certa dita no instante certo vale como credencial.
A flauta vence quando a eloquência muda de lado
Na peça curta que fecha o volume, o conflito reaparece em registro menor. Aniceto tenta impedir o namoro da filha Victorina com José Pimenta, tocador de flauta. Guterres, funcionário e poeta, entra na disputa armado de viola e versos. Uma troca de quartos faz a serenata chegar ao pai em vez da moça. A música que deveria seduzir passa a denunciar o sedutor.
O anúncio da edição prevê acompanhamento musical, e isso importa para a arquitetura das duas comédias. Canções, instrumentos e falas públicas não decoram a ação; são maneiras de ocupar o palco e tentar conduzir os outros. No desfecho, Guterres reconhece a derrota e ajuda o casal, enquanto a flauta vence a viola. A autoridade sonora troca de dono outra vez.
Na última cena, o pai cede e Guterres usa a própria eloquência para defender o rival. A fala não perde o poder; apenas muda de serviço. Depois de tanto discurso, a decisão favorece quem conseguiu ser ouvido pela pessoa certa.
Fontes
Cada afirmação de fato deste ensaio se apoia nas fontes consultadas na íntegra. As de acesso parcial estão marcadas como tais e não sustentam nada aqui.
Consultadas na íntegra
- CASTELO BRANCO, Camilo. Theatro comico: A Morgadinha de Val-D'Amores; Entre a flauta e a viola. 1871. Edição digital do Project Gutenberg, n. 30461. Disponível em: https://www.gutenberg.org/ebooks/30461. Acesso em: 25 ago. 2026. gutenberg.org
- BAPTISTA, Abel Barros. O primeiro romancista português. In: CAMILO CASTELO BRANCO: 200 anos. Mostra bibliográfica. Lisboa: NOVA FCSH, 2025. Folha de sala. Disponível em: https://www.fcsh.unl.pt/content/uploads/2025/09/Folha-de-Sala_Camilo-Castelo-Branco_29-abril.pdf. Acesso em: 25 ago. 2026. fcsh.unl.pt
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